Haverá futuro?

Haverá futuro?

O céu está limpo e imaculado como a ala cirúrgica do hospital de São João. O termómetro grita 45 graus no exterior. Na televisão, o jornalista afirma, pleno de felicidade, que o Fundão está prestes a bater o recorde de temperatura desde que existem registos e medições.

Saio. Fico a aguardar que o elevador chegue do décimo primeiro andar. Junta-se a mim o João, vizinho da frente. Após uma troca de palavras de circunstância sobre o tempo e o vento, o João atira confiante:

“Sabe Afonso, isto do aquecimento global é uma mentira. Sempre houve dias muitos quentes. A minha bisavó contava que em 1930 chegaram a ter um dia com 50 graus. Isto são as televisões e os jornais a vender desgraças e a disseminar o medo. No Paquistão estão a chover canivetes! Se fosse aquecimento global, todo o planeta estaria com temperaturas altas e seco”.

Faço um sorriso tímido, envergonhado e surpreendido. Digo apenas: “não é bem assim que o clima funciona”.

Chegamos ao rés-do-chão. Despeço-me do João e abandono o edifício.

Estou pensativo.

Numa época em que a informação está à distância de um dedo a passar delicadamente por um ecrã, a desinformação, a desconfiança com a investigação científica e o alheamento das pessoas estão a ganhar terreno. Sou incapaz de entender como é possível as pessoas acreditarem em realidades alternativas, ignorando factos e dados concretos. A ciência está sob ameaça.

Todos os dados e registos indicam que estamos num ponto sem retorno.

As alterações climáticas são uma realidade e não fazer nada é condenar a humanidade à extinção.

Acredito que o engenho humano poderá encontrar soluções para esta crise climática, mas é preciso que todos, desde o dono do restaurante à beira-rio ao empresário do turismo de aventura ou o diretor da fábrica de automóveis, acreditem que a ciência tem as respostas.

Imagem de annca por Pixabay

Penso no número gigante de pessoas que continuam a não fazer a reciclagem, “para quê fazer reciclagem? Eles depois misturam tudo”, diria o João, o meu vizinho; penso nas famílias que deixam o lixo abandonado na praia depois de um dia bem passado a mergulhar no mar frio de Viana do Castelo; penso no casal de namorados que atira janela fora o saco de papel com os restos da refeição daquele famoso restaurante de comida rápida.

Todos temos um papel nesta importante missão de reabilitar a nossa casa, o lindíssimo planeta azul. Os investigadores estão a encontrar formas mais eficientes e menos poluentes de produzir energia. Os governos estão a incentivar a utilização da bicicleta. As pessoas estão a mudar hábitos de consumo. As fábricas estão a encontrar formas mais limpas de produzir os seus produtos.

Se não cuidarmos do nosso planeta, quem cuidará?

O termómetro marca 49 graus. São 13 horas. Sento-me junto ao ar condicionado e peço o almoço. A Sofia traz o meu peixe grelhado com migas. Não resisto a perguntar à jovem trabalhadora: “Sofia, o que pensas disto da crise climática?”

A Sofia fica imóvel, olha-me nos olhos e para o céu limpo e responde: “O ser humano não merece este lindo planeta. Destruímos tudo para ganhar dinheiro e ter prazer imediato. Somos individualistas. Não olhamos a meios para atingir fins. E por fim, temos ainda uns iluminados que questionam se a terra é realmente redonda e desconfiam da existência da Austrália.”

Levo as mãos à cara escondendo os meus olhos carregados de água.

Se a humanidade estiver entregue a pessoas como a Sofia, haverá futuro.

Afonso Martins

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